NOITES BRANCAS (Relato de viagem)
NOITES BRANCAS
Por um desses mistérios insondáveis da aviação comercial, era mais barato ir do Rio para Berlim com conexão de mais de uma hora em Frankfurt do que ir para Frankfurt, que fica mais perto, num voo direto da Lufthansa. Pra mim e pra minha mulher, velha companheira de já tantas viagens, isso seria o desejável, pois nossa intenção era alugar um carro e já começar a viagem andando numa Autobahn sem limite de velocidade e dentro da lei. Além de conhecer uma cidade nova, apesar de Frankfurt não ser propriamente um destino turístico atraente, eu ficaria menos tempo sem dormir e sem fumar. Sim, não consigo dormir em avião, pois o comprimento das minhas pernas não combina com tarifas da classe econômica. Sim, ainda pertenço a essa classe em extinção, a dos fumantes. Mas, ao descobrir no Google que o aeroporto de Frankfurt é bem servido de fumódromos, e levando em conta a boa economia que faria com a absurda diferença de tarifas, optamos pela conexão. Só não contava com a maratona que teria que fazer entre o avião e o portão de embarque.
Berlim
Para um coroa fumante e já sem fôlego, pareceram quilômetros aquela distância. A "viagem" a pé só teve uma brevíssima parada para eu fumar um cigarro enquanto Zezé ia ao banheiro. Mesmo assim, chegamos ao nosso longínquo destino quando uma fila já estava formada para entrar no outro avião.
Chegamos a Berlim. Temia por outra maratona. Mas tive a surpresa agradável de a esteira de bagagens estar a poucos passos e, de lá, já avistar a saída para a rua. Me senti no antigo e aconchegante aeroporto do Tirirical, em São Luís.
Chuva e frio lá fora, às vésperas do verão. Adoro o frio moderado. Mas, como é sabido, a chuva é o pior inimigo do turista. Mesmo assim, foram agradáveis aqueles dois dias na ex-capital do Terceiro Reich. Em vez de ir dormir logo após o check-in no hotel modesto (mas com uma maravilhosa varandinha, onde eu poderia exercer meu abominável vício), Zezé e eu olhamos um para o outro e logo estávamos na rua, nos ajeitando debaixo do pequeno guarda-chuva que ela teve a sensatez de levar. A intenção era caminhar até a Kurfürstendamm, avenida coração da cidade a duas quadras do hotel, mas a chuva nos atacou mais forte, como tanques panzer da Wehrmacht invadindo a Polônia. Nos abrigamos numa pequena cervejaria, onde um bando de puros arianos bebiam cerveja, comiam salsichões e fumavam (!) sentados à mesa. (Como se pode ver, a Alemanha é um país atrasado. Lá ainda existem essas coisas que o Brasil já extinguiu, como fumódromos em aeroporto e bares onde se pode fumar). De turistas, só a gente. Era o lugar com que sonhava. Que Kurfürstendamm que nada! Pedimos cervejas e salsichões. Enfim, após aeroporto, subúrbios entrevistos da janela do táxi e hotel — coisas que existem em qualquer lugar do mundo — havíamos chegado à verdadeira Alemanha.
Se você acordar no seu primeiro e chuvoso dia numa cidade que ainda não conhece e onde só vai passar pouco tempo, uma boa decisão é pegar um ônibus de turismo e fazer um city tour. Sentado, no conforto térmico e abrigado das águas, sem ter que pilotar um guarda-chuvas (acho que a gente perde tanto guarda-chuva por causa de um desejo inconsciente de se livrar daquele estorvo), você vai ter uma visão geral da cidade. E vai poder escolher com calma os lugares aonde voltar mais tarde. Foi o que fizemos. Eu, por exemplo fiquei com vontade de voltar à Ilha dos Museus, formada por dois braços do Spree, o rio que atravessa Berlim, onde há uma concentração de prédios antigos e bonitos, que sobraram ou foram recuperados mais tarde dos bombardeios aliados, nos últimos dias da Segunda Guerra. Berlim é uma cidade bastante moderna para os padrões europeus. Para quem busca o antigo, não é dos lugares mais interessantes da Europa. Em compensação, podemos apreciar um show de arquitetura contemporânea, com os arrojados e criativos prédios que por todo lado se vê.
Ao voltar ao ponto de partida, na Kurfürstendamm (Kudamm, para os locais e os íntimos, mas que Zezé e eu apelidamos de Kufu), a chuva havia parado. Pudemos então zanzar por essa avenida que é o ponto mais muvucal de Berlim. Numa de suas extremidades fica a igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche, aquela que tem a torre decepada por uma bomba, deixada para sempre assim, como forma de lembrar a destruição causada pela guerra.
Foram apenas dois dias na cidade. E eu não teria saudade de lá se não tivéssemos voltado nos últimos dias da nossa viagem. Foi quando Berlim mostrou suas faces ocultas, bem mais bonitas e alegres que as da primeira vez. Ser feliz em algum lugar não depende só do lugar. Depende também (ou até principalmente) do seu estado de espírito e da sorte. Como disse Nelson Rodrigues, sem sorte a gente não consegue nem chupar um Chica-Bom. Pode se engasgar com o palito ou ser atropelado pela carrocinha!
Helsinki
A Finlândia é o quinto país com mais qualidade de vida no mundo. O ranking foi elaborado pelo Numbeo, gigantesco centro de dados com conteúdo gerado pelos internautas. A Finlândia é campeã em educação e segurança.
(Entre os outros critérios avaliados, estão a assistência médica, a qualidade do ar, o poder de compra da população, o preço para o consumidor, a relação entre o tráfego e o tempo de viagem e a relação entre o preço dos imóveis e a sua taxa de valorização.)
Por que escolhemos ir a Helsinki, capital da Finlândia, nessa viagem? Um casal de amigos que mora nos States moveu uma campanha para nos encontrarmos por lá, onde eles passariam alguns dias a trabalho. Além do encontro, era uma oportunidade de conhecer pelo menos um dos países da Escandinávia. Quando lembrei que agora não é mais preciso visto para a Rússia e descobri uma passagem baratinha para São Petersburgo, pronto, a decisão estava tomada. Íamos a um país escandinavo e, o melhor de tudo, realizaria em seguida meu velho sonho de conhecer a Rússia.
Helsinki não é uma cidade obviamente turística, mas vale a pena pesquisar em sites e blogs de viagem algumas de suas surpreendentes atrações, como o grande museu a céu aberto e o monumento ao compositor finlandês Sibelius. O que ficará para sempre na minha memória serão as suas noites de quase verão. Sentado numa deliciosa varanda de um bar, já passava de onze da noite quando me dei conta que o céu permanecia azul. Bati uma foto antes que escurecesse. Pura ignorância minha. Deu meia-noite e nada de escurecer. O céu continuava azul. E assim continuou, numa madrugada que parecia um fim de tarde de tão luminosa. Claro! Quanto maior a latitude no hemisfério norte, menos o sol se esconde nessa época do ano, da mesma forma que os dias são curtíssimos no inverno, quando o astro-rei dá as caras mais tarde e se despede mais cedo. Uma coisa é saber disso, outra é ver e viver. A noite azul de Helsinki nos emocionou.
Mas o melhor de Helsinki foi Tallinn, na Estônia.
Tallinn
No dia seguinte pegamos um ferry boat, como são modestamente chamados os espetaculares navios que fazem a travessia do Golfo da Finlândia em duas horas. Lá dentro tem cassino, loja duty free, restaurantes, bares e outras coisas típicas de um navio de cruzeiro. As duas horas passaram rápido e travessia foi uma atração em si mesma.
Mas a atração maior estava por vir: a encantadora cidade de Tallinn. Pouco mais de 400 mil habitantes, é a mais antiga capital da Europa setentrional. Você sabia? Eu também não. Acabei de descobrir na Wikipédia. Tallinn é um desses destinos turísticos pouco usuais (não topamos com nenhum brasileiro por lá) com o qual, não sei bem por quê, sempre sonhei. E Tallinn não me decepcionou. Entre muralhas e torres medievais, o centro velho é lindo, acolhedor e... velho! No melhor sentido da palavra.
Procuramos o endereço do apê que alugamos pelo Airbnb, o site que aluga por temporada casas, apartamentos e quartos e que anda incomodando os hotéis com sua concorrência. A gincana que foi encontrar a chave — guardada dentro de uma caixinha sem cadeado, presa a um cano de água, acompanhada de um bilhete dizendo que o nosso apê ficava em outra rua — teve como prêmio uma espetacular hospedagem. O apartamento era maior que o nosso do Rio, ficava no térreo e dava fundos para um arborizado quintal, a duas quadras da praça central. Tudo isso pela metade do preço médio dos hotéis de baratos em que ficamos nas outras cidades.
O grande programa em Tallinn é ficar vagando por suas adoráveis ruas, parar num charmoso café para tomar um espresso nada expresso ("espresso" em italiano quer dizer "espremido, comprimido" e não "rápido"), tomar uma cerveja da qual você nunca ouviu falar o nome, apreciar as belas estonianas (ou estonianos, dependendo do gosto do turista) e a arquitetura. Na hora de comer, experimentar um urso. Sim, um urso. Ou um javali. Ou uma boa perdiz. Em vários restaurantes, é comum a carne de caça. Zezé pediu sopa de rena, aquela mesma que carrega o Papai Noel. Eu, que adoro caça, de todo tipo e já sou íntimo de javalis e perdizes, pedi urso. Tem gosto de quê? De urso, é claro!
São Petersburgo
A noite russa caía. Mas apenas nos nossos relógios. Como em Helsinki, o céu continuava azul e assim ficou madrugada adentro, sem dar nenhum sinal das horas. Lembrei do romance "Noites Brancas" de Dostoiévski, onde um personagem sem nome encontra uma mulher sobre uma ponte do rio Neva e ao longo de algumas noites de verão vai se apaixonar por ela. As noites brancas na verdade são azuis.
Estamos na cidade de São Petersburgo (simplesmente Petersburgo para os íntimos, ou Peter, para os mais íntimos ainda), a terceira maior da Europa, depois de Moscou e Londres. E a mais ao norte, dentre todas as cidades do planeta com mais de um milhão de habitantes. Mudou duas vezes de nome ao longo do século XX. Foi palco de três revoluções e a que mais perdeu habitantes durante a longa e heróica resistência ao ataque nazista. Chamava-se então Leningrado, depois de ter sido Petrogrado no começo do século. A cidade de Pedro, o Grande. A cidade de Lênin.
A língua russa sempre foi uma paixão minha, tanto que estudei por quase um ano num curso que ficava na Rua das Marrecas,no centro do Rio. Estar num lugar cercado de palavras em alfabeto cirílico foi como estar num parque de diversões. (Cada doido com sua mania!). Para a surpresa de Zezé e para a minha vaidade, eu lia "de carreirinha" tudo que via pela frente. Isso não é propriamente falar russo, mas ajuda um pouco. Não precisa, por exemplo, mostrar para o motorista que não fala uma palavra de inglês um papelzinho com o nome da rua. Pode falar o nome da rua. E descobrir coisas menos úteis, como ela ser uma homenagem ao general Jukov e quase fazer esquina com outra que traz o nome do grande poeta Maiakóvski. Foi lá que ficamos, num apropriadamente chamado mini-hotel. Ele só ocupava parte de um dos andares do prédio velho, com o hall de entrada detonado e soturno, paredes pichadas e elevador precário. Essa péssima primeira impressão foi logo desfeita quando fomos recebidos por Olga, uma senhora gorducha e simpática que fez de tudo para nos entender e ser entendida, usando com desenvoltura o tradutor da Google. O quarto era simples mas grande e limpo. Como na primeira noite em Berlim, nem tiramos as coisas da mala e já seguimos para a 'Muvúskaia', também conhecida como Nevski Prospekt ou Avenida Nevski. Uma quadra da rua de Maiakóvski e estávamos lá. Meu primeiro dia na Rússia tinha de ser comemorado com uma aguinha (ou vodka em russo, diminutivo de vodá, água). É isso que significa o nome dessa bebida tão apreciada por Zezé, por mim e pelo povo russo. Da culinária russa, não podia deixar de experimentar um prato bem típico. Pedi um que se tornou universal, o estrogonofe. Era diferente. O champignon, por exemplo, não vem misturado à carne e o creme de leite, mas ao arroz que acompanha o prato.
São Petersburgo é grande demais, em todos sentidos, e bela demais. Não cabe numa narrativa curta de um viajante que passou lá apenas duas de suas brancas noites. Assim, só cabe mencionar algumas das coisas que me chamaram a atenção:
*A vida pulsante. É enorme o número de estabelecimentos que ficam abertos 24 horas. E as pessoas não param de passar na Avenida Nevski, o coração da cidade.
*O Museu Hermitage. O antigo palácio de inverno dos czares é hoje um dos maiores e mais ricos museus do mundo.
*A Catedral de Santo Isaac e a Catedral do Sangue Derramado. Fantásticas obras-primas da arquitetura sacra.
*Uma notável ausência de imigrantes, o que não é nenhuma vantagem, mas um diferencial em relação a qualquer outra cidade em que estive na Europa. Os poucos que encontrei e com quem conversei eram invariavelmente de uma ex república soviética, como o Cazaquistão.
*Os grandes espaços abertos. Petersburgo é grande e grandiosa.
*A beleza das mulheres.
Nunca vi, em nenhum outro lugar, tanta mulher bonita. Na varanda de um bar, tomando meu café espresso (acho que se pode medir o grau de civilização de um lugar pela qualidade do café e pelo número de estabelecimentos que o vendem), fiquei-as apreciando passar, altas, brancas, elegantes, imponentes, pela calçada da Nevski. Um verdadeiro exército delas desfilava diante de mim, tendo como fundo, do outra lado da avenida, o belo prédio que, segundo a gravação do ônibus do city tour, era o café onde Dostoiévski se encontrava para beber com os amigos. Acho que hoje em dia ele ele não teria tempo nem concentração para escrever as numerosas páginas de "Crime e Castigo".
De Peter, pegamos um avião, com conexão em Helsinki, para Berlim. Nem fomos à cidade. No aeroporto mesmo, alugamos um carro e já seguimos para Praga por uma Autobahn, uma dessas estradas alemãs em que o limite de velocidade é a consciência do motorista. Cheguei a 200, mas mantive em 180 km/h por algum tempo no piloto automático. Pela frente, nos esperavam, além de Praga, Dresden, as cidades checas de Cesky Krumlov e Karlovy Vary e, de novo, Berlim. Mas essa parte da viagem conto depois, que esta começou a ficar longa. Já estou em casa há alguns dias, mas a viagem continua. Como disse num poeminha que fiz após minha primeira e já longínqua viagem à Europa:
Esses lugares
de onde há pouco vim
já andam a todo instante
a passear por mim.
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