segunda-feira, março 30, 2015

POÇO FUNDO (2)



NA VARANDA, EM POÇO FUNDO
                                                                                           
"E a paz esteja presente como fruto maduro"
Laura Amélia Damous

A rede armada ao vento, na varanda
A montanha semeada de bois
Os livros plantados no chão de cimento
O canivete, o binóculo, o maço de cigarros
Todos os amados objetos pessoais
ao meu alcance

Não irei para tão longe
para Pasárgada ou para onde
a paz esteja presente como fruto maduro 

Sempre caro me fu quest’ermo cole

Aqui a paz é sólida e palpável

Aqui a paz é de se pegar
como fruta no pé


BALADA DE POÇO FUNDO

A quaresmeira já está em flor.
E hoje à noite a lua,
que já se aproxima velozmente do Morro do Presépio,
brilha pela metade
porque você não está aqui.
Se eu fosse um gigante,
arrancaria do solo essa árvore por inteiro
e ia te oferecer como um buquê.
Mas sou apenas 
um homem triste e sozinho
que não sabe bem o que fazer com seu amor
porque você não está aqui.
Eu tomaria essa lua
— que, súbito, em minha mão
se tornaria plena e esplêndida —
e te levaria por sobre as montanhas da Serra dos Órgãos
para bem longe,
“para além dos espantosos rochedos da Serra das Araras”
e a pousaria num planalto paulista
onde, a essa hora, dorme uma mulher,
silenciosamente, dentro da noite
e do meu coração.

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