UMA VIAGEM DURA PARA SEMPRE
Viajar é sair do modo automático da vida. E é fazer isso de
forma voluntária. É lançar-se no novo e no desconhecido com passagem de volta,
reservas de hotel e seguro de sáude.
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Levarei para passear
como companheiros de viagem todos os meus males. Bem que eu gostaria que eles
fossem para um destino e eu para outro. Mas teremos de ir juntos. E teremos de
nos transformar juntos. Esquecerei um pouco deles por algum tempo e espero que
eles se esqueçam um pouco também de mim.
***
Numa viagem quase tudo serve para enriquecer
nossa memória. Até as coisas erradas e os
imprevistos desagradáveis que nos
acontecem. Bagagens extraviadas, caminhos errados, brigas com o companheiro de
viagem ou, o pior dos terrores, um passaporte perdido. Assim como os momentos
sublimes, essas coisas indesejadas também aumentam nossa, digamos, bagagem
existencial. (Certa vez fui preso ao entrar na França, vindo de Amsterdam.
Portava uma substância comprada legalmente na capital holandesa, que subitamente
se tornou ilegal ao atravessar a fronteira. Não vou contar aqui essa longa e
sofrida história. Menciona-a apenas para lembrar o que me disse um amigo. Que
aquele dia na cadeia foi o serviço militar que nunca prestei.)
A viagem começa antes da viagem, com o planejamento dela, e
continua para sempre. Porque toda viagem
é que é para sempre, não um diamante, como dizia um slogan publicitário. O
diamante podemos perder ou podem os roubar. Mas uma viagem fica guardada no
cofre forte e inexpugnável da memória. Mal chegamos de volta, já começa uma
outra viagem.
Com o passar do tempo, ela vai melhorando, à proporção que a
vamos editando na memória e a vamos transformando num compacto, num programa
“Os Melhores Momentos”. Deles estão cortados os contratempos e os tempos
mortos. Nessa viagem, não há longas esperas nos aeroportos, não preenchemos
fichas nas recepções dos hotéis, nem entramos na fila da alfândega e da
Imigração. Só fica o susto do novo, momentos como aquele em que, ao estarmos
meio perdidos vagando pelas ruas de Roma, dobramos uma esquina e damos de cara
com a Fontana de Trevi. Só resta o sabor do vinho tomado naquela pequena aldeia
de pescadores no Algarve enquanto esperamos pela chegada do melhor peixe que já
comemos na vida. Só permanece o cair do sol sobre os canais de Veneza, essas
ruas líquidas, esses caminhos que caminham.
***
O país distante
de onde há pouco vim
já anda a todo
instante
a passear por mim
***
Viajar era uma experiência mais funda no tempo em que só
havia as cartas. Ou até mesmo no tempo mais recente em que só tínhamos o
telefone e telefonar era uma operação complicada.
Esse caráter de exílio voluntário está se perdendo com o
telefonema fácil e mais ainda com os iPhones e iPads , com a internet que nos
mantém ligados ao lugar de onde saímos. Tornam a viagem menos viagem, retiram
dela um pouco daquilo que a define, esse ir-se para outros lugares ao encontro
do inesperado e do nunca visto. Conectados na internet, permanecemos ancorados
em casa. Os mares nunca dantes navegados deixam um pouco de sê-lo nas
navegações no google, antes mesmo da viagem, a bordo da grande e ubíqua caravela internáutica. Vemos
no google view a fachada do hotel em que ficaremos muito antes de lá chegarmos.
Dá-se, assim, o esvaziamento da surpresa, o encolhimento da novidade, a
diminuição do teor de espanto.
Mas nada disso nos tira o prazer de viver o novo ao vivo, com
seus sons e cores, sabores e aromas, imersos na estrangeira realidade. Viajar é
sempre uma aventura. E, mais que um diamante, uma viagem dura para sempre.
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