segunda-feira, setembro 19, 2011

OUTROS POEMAS DE "ALGUNS AZUIS DO MAR DA BARRA"



A VOLTA DE NARCISO

No espelho do quarto de hotel,

Narciso volta a olhar sua cara

no lago de um outro tempo.

A cara velha de Narciso

é a velha cara de Narciso,

a cara do velho Narciso.

Se a juventude já não brilha nos seus olhos,

brilham nos seus óculos

as luzes do quarto, a televisão,

a lua, real, entre os letreiros

noturnos de São Paulo.

E isso lhe basta.

Pois, afinal, é só isso que brilha!

O resto é metáfora.


AEROPORTO DE SALVADOR

Baixa sobre a alma e o corpo

a profunda aceitação:

agora ama os idiotas,

está à vontade em meio à miséria dos homens.

Nada mais o exaspera e irrita.

Situa-se a três doses

- do consolador scotch -

acima de toda a triste humanidade.

Salvador é Paris e tudo é festa.

A tabacaria que não vende cigarros

é puro humor.

No aeroporto sem alma e sem caráter,

nenhuma canção de Caetano.

Mas o poeta se embala

ao doce som das turbinas.


CARTA DE DEMISSÃO

Em estilo curto e grosso

fez sua carta o suicida.

Pedia demissão

da sua missão já comprida.


CEMITÉRIO DE SÃO JOÃO BATISTA

Tudo é tão duro

na luz desta manhã:

o Pão de Açúcar, o muro,

a natureza vã.


Dura é a beleza

do céu sobre a cidade.

Ó Rua Real Grandeza,

quão grande é a realidade!

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