OUTROS POEMAS DE "ALGUNS AZUIS DO MAR DA BARRA"
A VOLTA DE NARCISO
No espelho do quarto de hotel,
Narciso volta a olhar sua cara
no lago de um outro tempo.
A cara velha de Narciso
é a velha cara de Narciso,
a cara do velho Narciso.
Se a juventude já não brilha nos seus olhos,
brilham nos seus óculos
as luzes do quarto, a televisão,
a lua, real, entre os letreiros
noturnos de São Paulo.
E isso lhe basta.
Pois, afinal, é só isso que brilha!
O resto é metáfora.
AEROPORTO DE SALVADOR
Baixa sobre a alma e o corpo
a profunda aceitação:
agora ama os idiotas,
está à vontade em meio à miséria dos homens.
Nada mais o exaspera e irrita.
Situa-se a três doses
- do consolador scotch -
acima de toda a triste humanidade.
Salvador é Paris e tudo é festa.
A tabacaria que não vende cigarros
é puro humor.
No aeroporto sem alma e sem caráter,
nenhuma canção de Caetano.
Mas o poeta se embala
ao doce som das turbinas.
CARTA DE DEMISSÃO
Em estilo curto e grosso
fez sua carta o suicida.
Pedia demissão
da sua missão já comprida.
CEMITÉRIO DE SÃO JOÃO BATISTA
Tudo é tão duro
na luz desta manhã:
o Pão de Açúcar, o muro,
a natureza vã.
Dura é a beleza
do céu sobre a cidade.
Ó Rua Real Grandeza,
quão grande é a realidade!
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