O poeta não tem público-alvo.
Ele lança sua seta invisível
para o próprio coração.
Mas se acontece de alguém flagrar seu gesto
e sentir no próprio peito a dor da seta,
terá tido sucesso
e alcançado a meta.
E nesse instante
(o seu verso vibrando
e ainda teso)
um silencioso aplauso se ouvirá.
Porque a platéia inteira de um poema
é um homem
só.
AEROPORTO
Todo aeroporto é mágico
na noite iluminada.
Cidades longínquas
reluzem seus nomes
no letreiro móvel.
Os sonhos embalados
querem viajar
no fundo das malas.
Todos os desejos
já querem chegar
à próxima escala.
Passageiros com sono
não sabem que a vida
é súbita partida
e súbita chegada.
Passam desatentos
pelos corredores:
não ouvem o remoto
rumor das turbinas
fabricando a noite.
Esperam pelo dia
inédito e claro
de outra cidade.
Todo aeroporto é trágico
na noite iluminada.
A CAVEIRA
A caveira de cavalo
(com seus dentes mordendo
o ar desta manhã)
ainda cavalga
na árvore seca.
Meu filho a pendurou ali quando criança.
Do cavalo vivo que ela foi um dia,
ainda ouço os ruídos dos cascos,
o relinchar na noite proclamando
a finitude de tudo.
O SENTIDO DA VIDA
Ao acordar
— 8,40 nesta manhã de domingo —
descubro que a vida não tem sentido.
Mas o dia segue seu curso
e logo desconfio
que ela só não tem sentido
pra mim,
não pra esse passarinho
que canta com tanto entusiasmo
lá fora,
na clara e fresca manhã.
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