quarta-feira, junho 25, 2014

PARA QUEM ESCREVE O POETA


O poeta não tem público-alvo.
Ele lança sua seta invisível
para o próprio coração.

Mas se acontece de alguém flagrar seu gesto
e sentir no próprio peito a dor da seta,
terá tido sucesso
e alcançado a meta.

E nesse instante
(o seu verso vibrando
e ainda teso)
um silencioso aplauso se ouvirá.

Porque a platéia inteira de um poema
é um homem
só.



AEROPORTO

Todo aeroporto é mágico
na noite iluminada.

Cidades longínquas
reluzem seus nomes
no letreiro móvel.

Os sonhos embalados
querem viajar
no fundo das malas.

Todos os desejos
já querem chegar
à próxima escala.

Passageiros com sono
não sabem que a vida
é súbita partida

e súbita chegada.
Passam desatentos
pelos corredores:

não ouvem o remoto
rumor das turbinas
fabricando a noite.

Esperam pelo dia
inédito e claro
de outra cidade.

Todo aeroporto é trágico
na noite iluminada.



A CAVEIRA

A caveira de cavalo
(com seus dentes mordendo
o ar desta manhã)
ainda cavalga
na árvore seca.
Meu filho a pendurou ali quando criança.
Do cavalo vivo que ela foi um dia,
ainda ouço os ruídos dos cascos,
o relinchar na noite proclamando
a finitude de tudo.



O SENTIDO DA VIDA

Ao acordar
— 8,40 nesta manhã de domingo —
descubro que a vida não tem sentido.
Mas o dia segue seu curso
e logo desconfio 
que ela só não tem sentido
pra mim,
não pra esse passarinho 
que canta com tanto entusiasmo
lá fora, 
na clara e fresca manhã.

0 comentários: