[poemas do meu primeiro livro, Tempo Turiense e Outros Tempos, que ficaram de fora das minhas Obras (quase) Completas]
PREFÁCIO
Tempo turiense é o tempo
em que se plantaram as
formas definidas
definitivas
e instalaram-se as regras,
diretrizes
de um viver aqui
ou em qualquer lugar.
Tempo turiense é o mesmo
tempo Belém, Belém,
sempre verão, inferno e céu,
Escadinha, Bar do Parque.
Tempo turiense é o mesmo
tempo Copacabana,
coca-cola, cloaca &
cacos
de lembranças,
azulejos ao luar.
A CASA DE BIBIA
plantada
na beira do rio ,
nas
antigas roupas dela e de Sabino.
A casa
A casa de Bibia é atemporal ,
à geração mais nova da família .
as
primeiras notas do rock´n roll
e faz
Bibia consumir Melhoral,
a luz elétrica ,
voltam
as sombras a cobrir
o baú
diz estar cheio de ouro e de dinheiro .
As sombras voltam a cobrir as cascas secas de
laranja
enroladas
no telhado ,
o
petisqueiro guardando os seus cristais .
Sabino
foi palhaço de circo
e fala inglês ,
Bibia
foi madame e rica
em Paris
e hoje lava , no
mesmíssimo dia da semana ,
AZULEJOS
Azulejos e desejos nas paredes da memória
Arabescos minha vida nas paredes uma história
(A lua e rua rimam com a minha infelicidade
Refletidas no azulejos das paredes da saudade)
Azulejo azul desejo na Fonte do Ribeirão
Meus pecados e meus vícios perdidos no Maranhão
(Emaranhado da vida)
Há muito mais que tudo isto esta noite
Noite antiga de menino aqui e agora
Silêncio violentado por um solo de viola
Em mês de fevereiro São Luís do Maranhão
(Tempo-espaço emaranhado dentro do meu coração)
A minha vida perdida na minha mão de criança
(Sei tão pouco dessa estrada como da palma da mão)
Essa ponte não é ponte
Esse mar de brincadeira
Essa ponte é uma ponte
Que não tem eira nem beira
KOHOUTEK
Sentamo-nos cada vez mais calados
nos novos bares que surgem na cidade.
Já nem dizemos mais:
“as palavras estão mortas”.
Calamo-nos.
Nas mãos, o osso deste tempo
duro de roer.
Estamos juntos nos bares,
no Bar do Parque, na
praça da República,
pública e notória
como peças de um museu.
Ruminamos com cerveja
maios que não explodiram
suas flores.
Estamos juntos no Bar
e esperamos
um mensageiro luminoso
que virá passar sobre nossa mudez
a cento e vinte mil
quilômetros por hora.
A UM POETA DE OUTRO TEMPO E LUGAR
Estou contigo, poeta.
No vazio desta noite
incolor,
inodora, indolor,
os teus versos chicoteiam
com o duro couro do teu
verbo
o dorso do meu sentir-te.
Estou contigo, poeta,
nesta noite sem
significados,
no grande transe de
perceber-te
angustiado maior,
mártir de saber o caos,
artesão de códigos de dor.
Estou contigo, poeta.
Nesta noite
insuportavelmente sóbria,
amasso as uvas do que dizes
para o vinho da magia
e brindo à poesia
que em meus sentidos todos
invade sua presença,
nesta suprema festa de te
ler.
Estou contigo, poeta,
e sigo pela noite ébria
as palavras com que lavras
meu ser poeta e estar
contigo
tantos anos depois de haveres
dito
o que está além do tempo e do espaço
e adentra minha indigente noite brasileira.
PLENILÚNIO
As coisas são como
são:
são como em sonho.
E isso é certo,
perfeito
como a lua em
plenilúnio.
A lua é o que dela
sonho.
Ela é como ela é
dentro do sonho.
VICE-VERSA
vide o verso e o
reverso
da medalha no meu
peito
verse a vida
viva o verso
sem conversa rima
efeito
faça a vida
viva o fato
viva o fato
faça a vida
infinito
vice-versa
PÉRIPLO
canto do caos
o caos me
encanta
enquanto
vida
cais da
partida
canto o
caos
o caos me
desencanta
enquanto nada
cais da chegada
.
3 comentários:
Gostei muito de 'Azulejos', onde crias imagens belas como 'azulejos e desejos nas paredes da memória'. O lirismo do poema desliza suavemente pela cadência eufônica do poema. Muito bonito.
Périplo exibe beleza singular pela veemência causada pela aliteração.
Abçs,
Azulejos virou letra de música. Está no soundcloud. Obrigado por suas palavras de poeta.
O primeiro verso de Périplo está errado. O certo é "canto o caos"
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