quinta-feira, agosto 29, 2013

(S)OBRAS (IN)COMPLETAS - parte 1
[poemas do meu primeiro livro, Tempo Turiense e Outros Tempos, que ficaram de fora das minhas Obras (quase) Completas]

PREFÁCIO

Tempo turiense é o tempo
em que se plantaram as formas definidas
definitivas
e instalaram-se as regras, diretrizes
de um viver aqui
ou em qualquer lugar.
Tempo turiense é o mesmo tempo Belém, Belém,
sempre verão, inferno e céu,
Escadinha, Bar do Parque.
Tempo turiense é o mesmo tempo Copacabana,
coca-cola, cloaca & cacos
de lembranças,

azulejos ao luar.


A CASA DE BIBIA

Silêncio e poeira habitam a casa de Bibia,
plantada na beira do rio,
mais antiga que o rio.
Poeira e silêncio cheirando a naftalina
nas antigas roupas dela e de Sabino.
A casa
guarda as suas vidas, velhas e mesmas,
que fizeram deles viúvos um do outro.
A casa de Bibia é atemporal,
museu de um mundo anterior
à geração mais nova da família.
o velho rádio invade pela casa o mundo novo,
as primeiras notas do rock´n roll
e faz Bibia consumir Melhoral,
que é melhor e não faz mal.
Mas quando, às dez horas, vai-se embora
a luz elétrica,
voltam as sombras a cobrir o baú
que o mito muito antigo na cidade
diz estar cheio de ouro e de dinheiro.
As sombras voltam a cobrir as cascas secas de laranja
enroladas no telhado,
o petisqueiro guardando os seus cristais.
as lembranças vivem na casa de Bibia.
Sabino foi palhaço de circo e fala inglês,
Bibia foi madame e rica em Paris
e hoje lava, no mesmíssimo dia da semana,
seus longos cabelos brancos
nas águas do tempo turiense.


AZULEJOS

Azulejos e desejos nas paredes da memória
Arabescos minha vida nas paredes uma história
(A lua e rua rimam com a minha infelicidade
Refletidas no azulejos das paredes da saudade)

Azulejo azul desejo na Fonte do Ribeirão
Meus pecados e meus vícios perdidos no Maranhão
(Emaranhado da vida)

Há muito mais que tudo isto esta noite
Noite antiga de menino aqui e agora
Silêncio violentado por um solo de viola
Em mês de fevereiro São Luís do Maranhão
(Tempo-espaço emaranhado dentro do meu coração)

A minha vida perdida na minha mão de criança
(Sei tão pouco dessa estrada como da palma da mão)

Essa ponte não é ponte
Esse mar de brincadeira
Essa ponte é uma ponte
Que não tem eira nem beira


KOHOUTEK

Sentamo-nos cada vez mais calados
nos novos bares que surgem na cidade.
Já nem dizemos mais:
“as palavras estão mortas”.
Calamo-nos.
Nas mãos, o osso deste tempo
duro de roer.
Estamos juntos nos bares,
no Bar do Parque, na
praça da República,
pública e notória
como peças de um museu.
Ruminamos com cerveja
maios que não explodiram
suas flores.
Estamos juntos no Bar
e esperamos
um mensageiro luminoso
que virá passar sobre nossa mudez
a cento e vinte mil
quilômetros por hora.

           
            A UM POETA DE OUTRO TEMPO E LUGAR

Estou contigo, poeta.
No vazio desta noite incolor,
inodora, indolor,
os teus versos chicoteiam
com o duro couro do teu verbo
o dorso do meu sentir-te.
Estou contigo, poeta,
nesta noite sem significados,
no grande transe de perceber-te
angustiado maior,
mártir de saber o caos,
artesão de códigos de dor.
Estou contigo, poeta.
Nesta noite insuportavelmente sóbria,
amasso as uvas do que dizes
para o vinho da magia
e brindo à poesia
que em meus sentidos todos
invade sua presença,
nesta suprema festa de te ler.
Estou contigo, poeta,
e sigo pela noite ébria
as palavras com que lavras
meu ser poeta e estar contigo
tantos anos depois de haveres dito
           o que está além do tempo e do espaço
           e adentra minha indigente noite brasileira.


PLENILÚNIO

As coisas são como são:
são como em sonho.
E isso é certo, perfeito
como a lua em plenilúnio.
A lua é o que dela sonho.
Ela é como ela é
dentro do sonho.


VICE-VERSA

vide o verso e o reverso
da medalha no meu peito
verse a vida
viva o verso
sem conversa rima efeito

faça a vida
viva o fato
viva o fato
faça a vida
infinito
vice-versa


PÉRIPLO

canto do caos
  o caos me encanta
    enquanto vida
      cais da partida
     
      canto o caos
    o caos me desencanta
  enquanto nada
cais da chegada
.

3 comentários:

Elizabeth F. de Oliveira disse...

Gostei muito de 'Azulejos', onde crias imagens belas como 'azulejos e desejos nas paredes da memória'. O lirismo do poema desliza suavemente pela cadência eufônica do poema. Muito bonito.
Périplo exibe beleza singular pela veemência causada pela aliteração.
Abçs,

jamil damous disse...

Azulejos virou letra de música. Está no soundcloud. Obrigado por suas palavras de poeta.

jamil damous disse...

O primeiro verso de Périplo está errado. O certo é "canto o caos"