quinta-feira, maio 30, 2013

Alguns poemas do meu livro inédito "O Rei do Vento":

PARA QUEM ESCREVE O POETA

O poeta não tem público-alvo.
Ele lança sua seta invisível
para o próprio coração.


Mas se acontece de alguém flagrar seu gesto
e sentir no próprio peito a dor da seta,
terá tido sucesso
e alcançado a meta.


E nesse instante
(o seu verso vibrando
e ainda teso)
um silencioso aplauso se ouvirá.


Porque a plateia inteira de um poema
é um homem

só.



O REI DO VENTO

minha coroa
é esta brisa no cabelo
meu cetro este pedaço de pau
com que topei na estrada
sujo de lama e poesia
(e que ainda guarda
nas nervuras da madeira
a ventania de uma tarde perdida)

não ouço a voz do povo
a me aclamar
só o vento bate em meu ouvido
(e o grito de uma criança proclamando
que estou nu)

no alto promontório em que me encontro
preparado estou
para a furiosa (e sem sentido) tempestade
que virá



PEDRAS DE PARATY

caminhar paraty
é dançar com as pedras
— conduzidos por elas —
no abraço íntimo
entre pés e pedras

as pedras nos convidam
(nos intimam)
a cada passo que damos
a olhar
para os nossos próprios pés
e para onde pisamos

vai-se sóbrio e elas nos desequilibram
vai-se bêbado e elas nos aprumam

impõem um ritmo mais lento
e mais solene
ao nosso andar leviano
de turistas

entrelaçam e integram
o nosso corpo frágil
ao seu corpo duro de pedra
com sua sabedoria nos ensinam
que o caminho
é sempre diverso e imprevisível

exigem
que as pisemos com respeito
e educam nossos corpos e sentidos
na obrigação do equilíbrio
e na vigilância do olho
mais atento

já íntimos, pés e pedras,
vem o prêmio:
podemos parar
para retribuir o olhar antigo das casas
(que nos espiavam
rindo da nossa falta de jeito)
a lua no céu
(de que antes só víamos o reflexo no chão)
e um pedaço de mar ao fim da rua
onde brame e se agita
o mistério do mundo 


A CATEDRAL DE OSCAR

Nossos olhares turistas
buscam a catedral.
Mas catedral não há.


Há 16 bumerangues lançados ao
céu.


Mãos ateias
quiseram aqui
tocar o divino.


O que traçaram?
Gesto de súplica?
Mãos em prece?
Coroa de espinhos do Cristo?
Cálice da consagração?


A tudo queremos comparar
a incomparável catedral.
Queremo-la figurativa,
mas ela é abstrata.
Íntegra em qualquer ângulo,
onde sua porta?
Porta não há.

O que há é o túnel,
o túnel escuro,
por onde entramos
para o espanto dos vitrais,
muros de luz.
Toda portas,
ela se abre aos nossos olhos
que, por fim, encontram
a cúpula:

o céu
azul
ardente
do Planalto. 

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