ANOTAÇÕES
Aqui,
a vida se guarda
E
os desejos são
rabiscos
O
pretérito imperfeito ,
O
presente inconsistente
E
o improvável futuro .
A
parte adivinha
o todo ,
O
continente , o conteúdo .
É
nosso agora
o chão , é nosso
o teto .
As
pequeninas coisas são
bem-vindas.
E
todas as coisas que
são lindas.
E
à noite o amor
habite a nossa cama .
E
que entre
o dia e a noite
haja o eterno
E
que seja imortal
aquela chama
E
o fogo violento
sempre terno .
14 VERSOS
TETRASSÍLABOS
mário
quintana
mário
faustino
mário
de andrade
jorge
de lima
manuel
bandeira
manoel
de barros
murilo
mendes
dante
milano
adélia
prado
paulo
leminski
nauro
machado
joão
cabral
oswald
de andrade
carlos
Drummond
SONETO
DO QUE NÃO PASSA
Te
dou o meu passado de presente:
a
luz de um certo maio que se foi,
a
lua que luava sobre a gente
no
campo antigo onde pastava um boi.
Eretas
palmeiras te ofereço
e
o vento que dançava sensual
em
suas palmas, com as quais eu teço
este
canto de dor e carnaval.
Te
trago desse tempo o que não passa:
a
flor que nunca murcha no seu vaso,
as
suas cores vivas, infinitas,
um
vinho intocado em sua taça,
um
arco-íris antes do ocaso
e
um buquê de palavras nunca ditas.
UMA
AUSÊNCIA SE ENGASTA NO MEU ROSTO
Uma
ausência se engasta no meu rosto
por
um um buril cruel, o tempo amaro,
desescultor
voraz, sempre em seu posto
dilapidando
o que era belo e raro.
Que
fazer com esta cara, a destes dias,
que
cara a cara o passado mira?
Um
nada se repete ( nada, nada)
mas
mesmo assim ainda se admira
porque,
cara, essa é a minha cara
e
esse sou eu! Num júbilo insuspeito,
eis-me
aqui, ante a lâmina do espelho.
Isso
é justo, isso é bom, isso é direito?
Não
me dá a resposta. Vira a cara,
dá
as costas e o seu sinal vermelho.
SONETO
DA PRAÇA GONÇALVES DIAS
Como
o poeta de pedra nesta praça,
um
poeta de carne mira o poente.
Os
seus olhos atentos saem à caça
dos
telhados e torres à sua frente.
Ali
ainda estão. Mas, à direita
do
sol que se afunda na baía,
uma
cidade feia e estrangeira
se
ergue onde antes nada havia.
As
torres, os mirantes, os telhados,
intactos
ao tempo tão ferino,
olham
o poeta, longe, indiferentes.
Será
que reconhecem o menino
nesse
velho que mira o seu passado
com
os olhos fatigados do presente?
A
CIÊNCIA DA DOR
A
quaresmeira já está em flor
e
a montanha, verde, ainda espera
pelo
teu olho verde e toda cor
que
possa aqui trazer a primavera.
A
quaresmeira já está em flor
e
em flor meus braços na espera.
Mas
a funda realidade ou o que for
isto,
o inominável, esta fera,
me
diz que aqui não voltarás jamais.
O
grito azul do céu desta manhã
lança
estilhaços da dor de tua ausência.
E
um urubu diz nunca, nunca mais,
enquanto
passa ao longe, em seu afã
de
me ensinar a dor, a sua ciência.
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