domingo, fevereiro 17, 2013

SONETOS



ANOTAÇÕES

Aqui, a vida se guarda
Em museu de formas cruas
E os desejos são rabiscos
Em busca de uma escritura.

Aqui se registram, impuros,
O pretérito imperfeito,
O presente inconsistente
E o improvável futuro.

Memória, fato e projeto.
A parte adivinha o todo,
O continente, o conteúdo.

Permanente metonímia,
Este caderno permite
Tanto o nada quanto o tudo.


SONETO DAS BOAS-VINDAS

Bem-vinda à minha casa, agora tua.
É nosso agora o chão, é nosso o teto.
São nossas as janelas, nossa a lua
Que acrescento ao plano do arquiteto.

Bem-vindos são teus livros, objetos,
As pequeninas coisas são bem-vindas.
Bem-vindos os teus sonhos, teus projetos
E todas as coisas que são lindas.

Que nossos dias aqui sejam mais claros
E à noite o amor habite a nossa cama.
E que entre o dia e a noite haja o eterno

Sempre que houver momentos raros.
E que seja imortal aquela chama
E o fogo violento sempre terno.


14 VERSOS TETRASSÍLABOS

mário quintana
mário faustino
mário de andrade
jorge de lima

manuel bandeira
manoel de barros
murilo mendes
dante milano

adélia prado
paulo leminski
nauro machado

joão cabral
oswald de andrade
carlos Drummond


SONETO DO QUE NÃO PASSA

Te dou o meu passado de presente:
a luz de um certo maio que se foi,
a lua que luava sobre a gente
no campo antigo onde pastava um boi.

Eretas palmeiras te ofereço
e o vento que dançava sensual
em suas palmas, com as quais eu teço
este canto de dor e carnaval.

Te trago desse tempo o que não passa:
a flor que nunca murcha no seu vaso,
as suas cores vivas, infinitas,

um vinho intocado em sua taça,
um arco-íris antes do ocaso
e um buquê de palavras nunca ditas.


UMA AUSÊNCIA SE ENGASTA NO MEU ROSTO

Uma ausência se engasta no meu rosto
por um um buril cruel, o tempo amaro,
desescultor voraz, sempre em seu posto
dilapidando o que era belo e raro.

Que fazer com esta cara, a destes dias,
que cara a cara o passado mira?
Um nada se repete ( nada, nada)
mas mesmo assim ainda se admira

porque, cara, essa é a minha cara
e esse sou eu! Num júbilo insuspeito,
eis-me aqui, ante a lâmina do espelho.

Isso é justo, isso é bom, isso é direito?
Não me dá a resposta. Vira a cara,
dá as costas e o seu sinal vermelho.



SONETO DA PRAÇA GONÇALVES DIAS

Como o poeta de pedra nesta praça,
um poeta de carne mira o poente.
Os seus olhos atentos saem à caça
dos telhados e torres à sua frente.

Ali ainda estão. Mas, à direita
do sol que se afunda na baía,
uma cidade feia e estrangeira
se ergue onde antes nada havia.

As torres, os mirantes, os telhados,
intactos ao tempo tão ferino,
olham o poeta, longe, indiferentes.

Será que reconhecem o menino
nesse velho que mira o seu passado
com os olhos fatigados do presente?



A CIÊNCIA DA DOR

A quaresmeira já está em flor
e a montanha, verde, ainda espera
pelo teu olho verde e toda cor
que possa aqui trazer a primavera.

A quaresmeira já está em flor
e em flor meus braços na espera.
Mas a funda realidade ou o que for
isto, o inominável, esta fera,

me diz que  aqui não voltarás jamais.
O grito azul do céu desta manhã
lança estilhaços da dor de tua ausência.

E um urubu diz nunca, nunca mais,  
enquanto passa ao longe, em seu afã
de me ensinar a dor, a sua ciência.



0 comentários: