sexta-feira, dezembro 16, 2011

11 POEMAS DE "TEMPO TURISENSE & OUTROS TEMPOS" (1978)



 

TEMPO TURIENSE


Turiaçu é onde o sol se põe
e, mais que isso, onde nasce
graúdo
sobre a cerca , no quintal.
Turiaçu é aqui,
onde quer que eu esteja.
Onde haverá sempre uma cerca e um quintal,
a lama do apicum povoada de caranguejos
e sonhos. E todo sonho é no
Turi. Seu palco e locação,
referência sempiterna.
Turiaçu é onde os pontos cardeais têm ponto certo:
o leste na ponta do nariz,
o norte, sul, oeste
e ser feliz
é antever o sol
no canto do galo e no cheiro das manhãs.
Turiaçu é quando, como, porquê.
É onde
está tudo, miniatura do mundo:
o prefeito, o padre, o padeiro
e Deus,
que é turiense,
senhor dos seus céus  
que se estendem do Castanhal ao Canário,
do Alto de São Benedito ao outro lado do rio.
Turiaçu é o rio, o Rio
sem nome
fluindo
sem memória
as águas
e os dias
quente-úmidos
do tempo turiense.

A vida por aqui passa mais lenta.
A maior aventura é descer de bicicleta a Rua Nova e
seus perigos. Curvas e medos.
Ir pra missa, comer Cristo, o gosto puríssimo
e branco, luminoso.
Declinar todo pecado,
dormir em estado de graça,
alma limpa, corpo cristalino.
A vida por aqui passa mais lenta:
o velho relógio na parede é que ordena
a hora do almoço,
a mesa posta de cambéua gorda,
o  gordo colo da tia
onde repouso uma infinita preguiça
de meio-dia.
Turiaçu é a casa da tia,
coisas antigas no mesmíssimo lugar
há muitos anos,
quartos escuros,
grandes varandas, onde redes
armadas ao vento
balançam
infantes fantasias.
Turiaçu é a vida subterrânea
pulsando  outras vidas, fabricando seus sonhos:
o pai cavalgando meus dias atuais,
imenso e morto.
Turiaçu é mais que uma cidade perdida
em um ponto qualquer do litoral
norte do Brasil,
entre igarapés e lama,
sob chuva e sol,
o Equador.
Turiaçu é a cidade perdida
em um ponto qualquer desta memória
estendendo suas ruas e praças em meu corpo,
o rio nas veias,
a terra devorando
a carne do poeta.

Vinte anos depois,
à margem de outro rio, o sol se põe.
Anoitece no Turi,
dentro de mim.


URUBU

Na ociosa tarde turiense,
olhos espreitam a cerca, o quintal,
os urubus.
Os urubus, dizem, têm vida longa.
Longa, portanto, será a brincadeira.
O anzol, isca de carne podre, fio de quitanda.
tudo o que é preciso.
A negra constelação se espalha pela cerca.
alguns cercam o anzol.
O mais negro, o mais feio, o mais urubu
é escolhido.
Olhos no alvo negro, negro, semovente.
Firmes na mão
os instrumentos: o fio
e a maldade.
E puxa-se o barbante.
No instante fatal, isca mordida,
os infernais infantes gritam em coro
sua conquista.
Começa a procissão: o urubu passeia
pelas ruas sua desgraça.
Prossegue a procissão: os pequeninos e sua presa
passam pela praça, pela igreja, pela casa
dos padres, pecadores.
Pedradas, pauladas, pontapés.
O ritual culmina:
estopa no rabo,
fogo na estopa.
E o urubu sobe aos céus
em labaredas.




GALILEU GALILEI

A terra gira gira gira
gira em torno do sol.
Astro-rei-ressurreição-Galilei.
A verdade gira
com o tempo
como o tempo.
A leve pedra cai. A pesada pedra cai
rumo à verdade.
As pedras caem. Razão.
Galileu negou
porque queria comer ganso,
tinha medo da dor física
e sabia
que a verdade gira,
que a verdade é feita
do tempo.



POEMA POR CAUSA DE UM BEIJO ANDARILHO

Eu fui apenas uma figura a mais no seu caminho
percorrido sozinha e com o mundo
passando pelos seus dias
na mochila entre as Américas.
Eu, cicerone, lhe mostrei apenas que tudo é o mesmo
e que Belém tem para mim o mesmo mistério
de todas as cidades que não conheço.
Por isso, não lhe mostrei o Ver-O-Peso
nem a Praça da República e seus loucos
fugidos dos hospícios.
Fui com ela ao cinema e vi o seu sorriso austríaco
ao ouvir a música de Strauss no filme de Kubrick.
Eu estava me apaixonando por Margot Sluka,
o corpo bonito, a calça Lee desbotada,
um ano e um mês de Américas.
Em sua viagem pelo mundo, 
Margot Sluka  comia e bebia
pouco como um camelo e olhava muito as pessoas
como um gato. Entre seus mistérios e paradoxos
guardados na mochila e nela mesma,
a virgindade. I am as I am. Margot Sluka
não me deu um beijo sequer no dia anterior à
despedida, quando havia entre nós um caminho de
ausência a ausência. Nem lhe disse palavras
de amor, because my English is really very bad
e falo com sotaque turiense.
Porém, na quarta-feira passada,
em meio aos meus compromissos com o mundo,
eu recebi um beijo que ficou parado no ar
como num passe de mágica,
trazendo todas as cidades por onde andou,
um beijo em todas as mil línguas do mundo,
um beijo de despedida e chama deste
desesperadominical poema que ela não vai ler
no seu atemporal domingo das Guianas.


DIA DE FINADOS

Hoje,
não visitarei meus mortos.
Os mortos não habitam cemitérios.
Às vezes,
em dias claros como hoje,
eles é que vêm nos visitar.
E habitar em nós
suas sombras,
perguntas sem respostas,
enigmas e medos.
E nos fazer revisitar
o olvidado corpo, instrumento
de tocar a vida,
máquina de viver.
Às vezes, em dias claros como hoje,
eles vêm visitar em nós,
eternos companheiros da condição humana,
o outro lado sem luz
da lua de existir
e seus mistérios.




INSPIRAÇÃO

Preencher com nada o vazio
e expirar
o ar
modelando em som
o invisível
que signi-
fica na memória.
Processar-se a magia da criação:
Jeová sopra vida em Adão.
E a palavra,
anjo alado,
comunica,
desangustia.


PALAVRADOR

    lavra
            dor
palavra
    lavrador
palavra
           dor




A BARRIGA DO POETA

Esta barriga que se me dependura
por certo não é de nascença
e nem pode ser coisa que dura
a vida toda, assim imensa.
Aliás, esta barriga, não a reconheço
como tal.
É mais um apêndice esquisito,
corpo estranho,
que a cada dia mais me tem pesado.
Não a reconhecerei como barriga.
De agora em diante, fica nomeado:
é coisa de outro mundo,
objeto não identificado.


INVENTÁRIO DOS OBJETOS ENCONTRADOS NA BOLSA DO POETA

Uma caneta Bic escrita fina azul.
Uma maço de cigarros marca Albany
contendo l9 cigarros.
Uma caixa de fósforos marca Olho.
Uma carteira de identidade emitida pela SEGUP-PA,
de número que o poeta nunca conseguiu decorar.
Uma carteira de trabalho
com a assinatura de um emprego
do qual o poeta foi demitido no último dia 26
e onde exercia a função de redator de publicidade.
Uma carteira do CPF cujo número
o poeta nunca irá decorar.
Uma folha de papel tamanho ofício contendo uma tabela
de preços de peças publicitárias para free-lancers.
Duas folhas de papel tamanho ofício contendo o poema Tempo Turiense.
Uma pequena agenda azul com endereços e telefones,
onde não constam telefone ou endereço
de quem poderia vir em seu socorro,
neste momento de profunda solidão.
Uma fita cassete onde está gravada  uma canção
escrita pelo poeta, contendo uma infinita esperança
de tudo dar certo um dia.


PRAÇA DOS TRÊS PODERES

Brasília,
no dia em que meus olhos
te visitaram pela primeira vez
o projeto concreto
à luz do sol do planalto,
meu coração repartiu-se
entre o projeto
e a cidade viva
em movimento.
Diante de meus olhos,
fez-se a alvorada
de formas exatas.
Meus olhos viram,
empoeirado,
o sonho alto de Oscar,
a arquitetura nova
(funcional pois bela)
de futuras formas de viver.
Mas meu coração viu
a triste arquitetura
de vidas desfuncionais e feias
(ofendidas e humilhadas
nos bancos da Rodoviária)
sem qualquer poder
em frente à Praça.




CASA DOS TRINTA

                                                                               Para Aldora Cruz
Quando o mês de junho chega
por uma das muitas portas
que o tempo te vai abrindo
- sem que tal favor lhe peças -
vais entrando em casas novas
que só a custo se habitam.
São casas que a cada ano
mudam de cores, fachadas.
Há as estreitas, escuras,
outras por muitos, diversos,
luas e sóis clareadas.
Mas só de dez em dez anos
habitam-se casas grandes
que, assombradas ou não,
há que vivê-las em largo,
como em teus trinta, mansão.












1 comentários:

Cristóvam Araújo disse...

Tempo Turiense, Dia de Finados, Praça dos Três Poderes. É sempre um desafio destacar algum poema entre os teus, mas estes estão entre os que eu mais gosto.