NEDERLAND
O país distante
de onde há pouco vim
já anda a todo instante
a passear por mim.
O TURISTA
EXILADO
Quando cheguei sozinho a Paris
e, cansado da viagem, me deitei
naquele quarto de hotel barato
e tentei fechar os olhos já saturados
de tantas imagens,
o primeiro som que ouvi
foi o estrangeiro pio de um passarinho.
Um único dia fora do meu país
e tudo já era
exílio.
o danado do poeta tinha razão
(e comecei a
chorar):
as aves que aqui gorjeiam
não gorjeiam como lá.
NO TREM DE
CAMBRIDGE
No trem de
Cambridge
para Londres
a noite
inglesa caía
do lado de fora
fleumática e fria.
Dentro do trem eu ia
lendo a paisagem.
A sintaxe das casas tristes
não me era estrangeira.
O que ela me dizia
de há muito eu já sabia:
que é do lado de dentro a paisagem,
que é pro rumo de dentro
toda viagem.
COM O PÉ QUEBRADO EM PARIS
À la rue de la Glacière,
Paris m’a cassé les pieds.
C’est le temps de prendre un verre
à tout ce qui m’a manqué.
E como eu manquei por lá!
Pelas ruas de Paris,
nenhum verso de pé quebrado
diria que fui feliz.
A ESTÁTUA DE PESSOA N'A BRASILEIRA
Em cada parte do Universo
há um pouco de Pessoa.
Menos na sua estátua
n’a Brasileira, em Lisboa.
Turistas apontam câmeras
para o bronze luzidio,
mas o poeta passeia,
lá embaixo, no Rossio.
Depois passeia no alto,
no Castelo de São Jorge.
Sua verdadeira pessoa
não há escultor que forje.
Não adianta, turista,
o teres fotografado!
Só os que leem seus versos
podem sentar-se ao seu lado.
FLORENÇA
E FLORENÇA
Eu nunca fui
a Florença.
Por isso é preciso fazer um poema para Florença.
Um poema com as pedras arredondadas pelos
sonhos de ver
Florença.
Esses que já
me habitam.
Com essas pedras, pavimentar as ruas da
cidade sonhada.
Porque a lua que irá
banhá-las é a mesma lua que banha
este março cruel e chuvoso do rio de Janeiro. a
mesma lua
que banha os campos –
também
tão lindos – do meu país
destroçado.
Eu nunca fui
a Florença.
Por isso é
preciso sonhar Florença.
A sonho joia de pedra, incrustada de
ideias. a sonho a cidade
visível do meu desejo de caminhá-la, concreta, no esplendor
de sua materialidade.
O rio Arno corre na veia da memória.
A Ponte Velha desde
sempre esteve aqui, a ligar a realidade e
o sonho, o velho e o
novo, Florença e Florença.
Aqui estou, na praça de Miguel Ângelo.
Diante de mim, o
vale do Arno e a silhueta da cidade. A torre do Palácio Velho
à esquerda e, à direita, a igreja de Santa Cruz. Ao centro,
a cúpula do Duomo. Bruneleschi apoia a
mão direita em
meu ombro e a outra aponta para sua obra. Numa esquina
insuspeitada, Galileu empunha uma luneta e
descobre que
a Terra gira em torno do homem. Em frente ao restaurante,
Miguel Ângelo grita: “Parla!”
E as palavras são
esculturas feitas
de ar. (Esculturas mais perfeitas que o Moisés:
não lhes falta
nem falar.)
Na Praça da Senhoria, Leonardo tenta se identificar
ao porteiro do hotel, enumerando seus
feitos. Donatello,
Boticelli e Fra Angelico passeiam entre os japoneses com
suas câmeras fotográficas. Ghiberti, Ghirlandaio e Giotto se
alinham em ordem alfabética na relação dos
hóspedes.
No
balcão, Dante
escreve num cartão postal: “o homem é a mais
bela criação de
deus”.
É preciso observar Florença. Com olhar exato, inocente e
apaixonado. Saio pelas ruas e invento a perspectiva e os
primeiros nus.
Aqui nada foi roubado de outro lugar. Obras de seus próprios
filhos, os tesouros de arte e arquitetura
se perfilam íntegros
ante meus olhos brasileiros. Penso em Aleijadinho e Oscar,
na utopia de meu país, no que podia ter sido e não foi.
Sei que
tudo isso também
é
meu. Cada museu é
minha casa. Quem
ama o belo já
o possui na escritura definitiva da
memória.
Já
tenho a fadiga generosa de percorrer
Florença. Agora a
lua cai sobre as pedras. A lua de
Florença, lua que nunca
vi, ilumina todo o mar de Copacabana. ( É uma
lua quase
cheia, feito a felicidade. É uma
lua quase meia, inteira em sua
metade.)
É
preciso ver, ouvir, cheirar, provar e tocar Florença.
Só
então poderei trazer de Florença o que ela tem de melhor:
artigos de couro, finos tecidos, a luz da
lua sobre o Arno, os
mais belos quadros dos Ofícios. E a saudade que terei de
Florença, quando for Florença que já
estiver, então, a passear
por mim.
PAISAGEM
HOLANDESA
No porto de Rotterdam
um navio descarrega
minério e manhã.
ROMA
Súbito, o susto
de uma fonte,
uma ponte
ligando o hoje
ao olvidado ontem.
HEIDELBERG
Tudo tão
claro,
tudo tão nítido,
na luz desta manhã.
Tudo afinado
como uma orquestra
sinfônica alemã.
A NEVE
A neve nunca pousou num verso meu.
Minhas mãos jamais tocaram
a maciez gelada de seus flocos.
o mundo ainda não ficou branco
ante meus olhos.
Tudo que conheço é o vento,
o vento sem fim que bate nos babaçuais,
a chuva imemorial que sempre fecundou a minha vida
e o sol que de janeiro a janeiro
brilha sobre as areias
das praias da minha terra.
a neve nunca pousou num verso meu.
Por isso, a espero
inédita e alva,
caindo de um céu estrangeiro
sobre meu rosto
e meu espanto.
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