O OUTRO
Aqui estou,
estamos,
eu e o outro,
o que carrego comigo
como um fardo pesado, um estorvo,
mala sem alça,
esse cara sem alma,
feito só de carne e osso,
humores, sangue, meleca de nariz.
Carrego ele comigo pelos dias e noites
e o desgraçado tem insônias,
dores despropositadas,
tosses fora de hora.
Não pára de fumar
e toda hora tem desejos estranhos
o infeliz.
Tão diferente de mim,
um sujeito equilibrado,
que trabalha duro
para sustentar os vícios dele.
Qualquer dia desses
o abandono
sem dó nem pena
e vou viver a vida sozinho
antes que a morte nos separe
ou nos una para sempre.
ORAÇÃO
Senhor, dai-me um Mercedes Benz
ou pelo menos um Honda, um Mitsubishi,
porque são belos e exatos
e eu só sei te encontrar
na beleza e na exatidão.
Dai-me, Senhor, algum dinheiro,
de preferência dólares,
para que meu amor por ti
não se desvalorize com a inflação.
Dai escola boa para meus filhos,
porque a ignorância é o maior pecado,
e casa confortável para morar
– são por acaso os templos espeluncas?
Senhor, dai-me alimento com fartura e qualidade
para que, ao jejuar em tua homenagem,
tenha mais valor o meu jejum.
Que eu possa sempre andar de avião
e viajar pelo mundo
para estar mais perto do céu
e conhecer muitas das tuas moradas.
E, se possível, Senhor, dai-me
uma casa de praia, com uma lancha bonita
atracada no pier
e uma fazendinha nas montanhas
onde eu possa sentir teu cheiro
no estrume do gado
perfumando o ar fresco das manhãs.
E, depois de tudo isso, Senhor,
se não for pedir demais,
fazei-me passar
montado sobre um camelo
pelo buraco da agulha.
DE CERTAS COISAS NUNCA SABEREMOS
De certas coisas nunca saberemos:
onde é que nascem os rios,
por que flutuam os navios
e onde foram parar os brinquedos
de quando éramos crianças.
Por certo nunca saberemos
como era mesmo o sonho que tivemos
na noite anterior
(e que o rumor do dia nos fez esquecer
para sempre).
Jamais será sabido
o que ia ser dito na frase incompleta
daquele papo banal
subitamente interrompido
pela chegada de um amigo.
(Certas coisas brilham seu mistério
à luz desta manhã:
meu canivete vermelho,
a minha cara no espelho
e essa esperança vã.)
Nunca saberemos para que servem
a música, a poesia, o trabalho,
o amor por uma mulher.
E no entanto somos feitos
dessas coisas de que nunca saberemos.
Por isso, não sabemos quem somos.
Porque não podemos mesmo saber tudo
no mundo misterioso e múltiplo
de que somos parte,
continente e conteúdo.
sábado, março 15, 2014
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